23 de Julho de 2009
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Publicada em 27/02/07

Cidade Limpa/cidade suja

Leia, a seguir, artigo do professor Silvio Dworecki, da FAU-USP, que promoveu, recentemente, o debate "Anúncios na paisagem urbana de São Paulo; a nova lei".

"Conta-se que em Portugal, na ditadura salazarista, não se podia andar sem sapatos em Lisboa. É simples: quem não tinha sapatos não andava nesta cidade. E quem a observasse, não via miséria. É semelhante o impacto da Lei Cidade Limpa. O cidadão é seduzido pelo título. Ora, quem não almeja uma cidade limpa? Mas a retirada de anúncios a céu aberto não tornará limpa a cidade de São Paulo. Nem sequer no aspecto visual.

Pode-se ler sobre a cidade nos jornais. Pode-se saber sobre ela pelo que dizem os cidadãos. A cidade também fala visualmente: arquiteturas, pessoas a transitar, anúncios exteriores, sinais de trânsito fiações emaranhadas, grafites, pichações...Tudo que se oferece ao olhar revela suas agruras e alegrias.

A lei diz que os anúncios sujam. Que os anunciantes são poluidores. Poluidores, portanto, com o aval da municipalidade, pois cada anunciante paga imposto para se mostrar e para que a Prefeitura o fiscalize. Do banco mais poderoso ao tintureiro da esquina, no que toca aos anúncios a céu aberto, ninguém está em situação regular. Se o objetivo é limpar, a Prefeitura deveria fazer mea culpa. A Prefeitura não os fiscaliza.

É cúmplice da cidade suja.

Não será através de um decreto que São Paulo se tornará limpa, ordenada. Como também não foi através de um decreto que se erradicou a miséria em Lisboa. Isso demanda um diálogo de longo prazo.

Quando se dá ao projeto o nome de Cidade Limpa, isto é um embuste. Está a se iludir o cidadão. Como cenário que cai, a ausência dos anúncios revelará, certamente, e com mais crueldade, a miséria com a qual contracenamos."

Artigo publicado na revista Franquia ABF, edição de fevereiro de 2007.

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