23 de Julho de 2009
Quero encaminhar essa notícia para...

Publicada em 08/11/06

Definir O Que É Poluição, Eis O Xis Da Questão

O que deve ser tirado? O totem do McDonald’s ou o anúncio caseiro?

Jotabê Medeiros

Se a mensagem está inserida na paisagem da cidade, a gente é obrigado a ver. E não tem como mudar de canal, fechar o olho, rasgar, desligar. Paisagem urbana não é como Tva a cabo, ela se impõe, é imperiosa. Definir o que não é e o que não é poluição visual no meio desse bombardeio nas nossas retinas é uma tarefa bem mais complexa.

O prefeito Gilberto Kassab considera fácil discernir o que pode ficar e o que não pode. "A queda de qualidade na paisagem urbana é facilmente percebida ao se constatar a imensa variedade de anúncios, equipamentos e mobiliário urbano instalado nas ruas da cidade, sem critérios de localização e destituídos de qualquer relação formal entre si, proporcionando um caos visual que mais confunde do que equipa o espaço público", escreveu o prefeito em carta a Roberto Trípoli, presidente da Câmara.

É possível que tudo o que tudo é uma questão de legalidade, que o totem gigantesco do MacDonald’s ou o outdoor do Carrefour são criteriosos ou harmônicos, enquanto o caminhão com placa que anuncia "vende-se jabuticaba produzindo" é feio e atenta contra a paisagem?

"Qualquer propaganda, se colocada inadequadamente, causa poluição visual", diz o artista visual Gustavo Pandolfo, que com o irmão, Otávio, forma a dupla Osgemeos, grafiteiros de reputação internacional, com trabalhos em museus americanos e europeus. "A intervenção desordenada causa poluição visual, embora seja parte do estilo de São Paulo: não ter regra nem ordem, sem completamente fora de controle."

Para o cineasta Ugo Giorgetti, uma questão se impõe na discussão sobre o que é e o que não é poluição visual em São Paulo: quem vai determinar isso? "Se for o gosto médio burguês, o resultado será terrível" pondera. Giorgetti diz que há outros elementos, além da publicidade, que concorrem para o caos paulistano. "Os automóveis são um grande responsável. O final da 9 de Julho, é bonito, em árvores, um recorte interessante. Mas ninguém consegue enxergar, está cheia de carro".

Segundo Giorgetti, é importante que ocorra a remoção do excesso, mas é preciso cuidado com os critérios. "O problema maior é a quantidade, mais do que o teor. Você vê a Broadway, em Nova York. Aquilo também é de um mau gosto atroz."
Na visão do paisagista Fernando Limberger, o que causa maior "ruído" na comunicação visual é a superposição de propaganda. "São coisas desmedidas, um querendo ser maior do que o outro. No final, a gente não consegue se deter em nada. Acho que a discrição e limpeza têm a ver com a decisão de se viver numa cidade de forma mais saudável."

Para Limberger, é importante também que uma ofensiva contra o caos visual na cidade seja acompanhada de outras medidas. "É preciso reabilitar espaços públicos. Tudo isso tem a ver com a retomada de uma mentalidade coletiva", diz o artista, que trabalhou recentemente, com Mônica Nador, na revitalização da Praça Bacharel Fernando Braga Pereira Rocha, no encontro das avenidas Cupecê, Ângelo Cristianini e Garcia de Ávila, no Jardim Miriam, na zona sul.

O arquiteto Rogério Batagliesi, ex-presidente do Fórum da Paisagem Urbana, aponta outros elementos que compõem a poluição visual, como fiação elétrica caótica e os anúncios lambe-lambe nos postes de luz. "A cidade está envelopada, mas é possível achar alternativas sem radicalismos", diz.

Jornal "O Estado de São Paulo" - Caderno Metrópole - 26/09/2006.

Leia mais sobre HfjNUlYZ