23 de Julho de 2009
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Publicada em 13/11/06

Viva A Poluição Visual

O modo como a Prefeitura de São Paulo quer combater a poluição visual na cidade é uma atrocidade com toda uma classe de publicitários

A MANEIRA como a Prefeitura de São Paulo pretende combater a poluição visual na cidade, banindo toda propaganda externa -outdoors, cartazes, backlights, banners, painéis etc.-, representa uma atrocidade a toda uma classe de publicitários, em especial aqueles conhecidos no meio como diretores de arte, artistas que se dedicam à publicidade e que têm nos cartazes de rua sua mais antiga e tradicional ferramenta de trabalho. E também a mais instigante de todas.

Pois é nesse veí¬culo de comunicação, o cartaz de rua, que se pode mostrar todo o talento e a criatividade de um publicitário. Isso porque um bom cartaz deve ser a sí¬ntese absoluta de uma idéia publicitária, em que só cabem uma imagem e, no máximo, cinco palavras que definam o propósito da peça publicitária. Deve ser explicativo no tempo máximo de três segundos para vender a idéia e ser lembrado por um longo tempo. Essa é uma tarefa difí¬cil, quase impossí¬vel, mas que muitos diretores de arte sabem fazer com maestria.

Será que, quando a prefeitura decidiu proibir os cartazes de rua, não lembrou, nem por um instante, o quanto são importantes na vida comercial e cultural os "cartazistas", herdeiros de uma arte que vem do século 19, quando, graças ao surgimento da litografia, se passou a imprimir cartazes coloridos com uma reprodução de altíssima qualidade? Peças que hoje enchem museus em todo o mundo e coleções particulares de grande valor. Reproduções dessas obras de arte são vendidas nas melhores livrarias, por seu valor estático e cultural.

Só para lembrar aos senhores encarregados da proibição da propaganda externa, aí¬ vão alguns nomes de pessoas que se dedicaram a essa modalidade de "poluição visual": Toulouse-Lautrec, Pablo Picasso, Joan Miró, Pierre Bonnard, Saul Bass, Paul Rand, Shigeo Fukuda, Ikko Tanaka, Bruno Munari, Pierre Fix-Masseau, Walter Gropius, Lucian Bernhard, Max Bill, Beggarstaff, Alphonse Mucha, Raymond Savignac, Steinberg, Ramon Casas, Paul Colin, Peter Max, Hans Rudi Erdt, Piatti, Franco Grignani, Henry van de Velde, René Gruau, Herbert Matter, Milton Glaser, Cassandre e muitos outros que, como nós, adoramos fazer belos cartazes para a beleza da cidade e alegria do povo. Ao contrário de São Paulo, Paris tem orgulho de seus cartazes.

Não posso imaginar que tipo de pesquisa ou análise foi feita sobre a poluição de São Paulo, quem fez esse levantamento, como se chegou à conclusão de que os publicitários são os culpados. Talvez seja porque, hoje em dia, somos culpados de tudo: acidentes de trânsito, obesidade, anorexia, sexo e violência. Até na política viramos inimigos da sociedade.
De uma coisa estou absolutamente certo: não são os cartazes de propaganda que estão poluindo São Paulo. O drama do caos visual de São Paulo está em outro lugar, em muitos outros lugares que não se podem mostrar. Não é politicamente correto apontar a causa porque é tão gigante o pepino que não vale a pena discutir. É mais fácil apontar Ferraris e Mercedes como responsáveis pelo excesso de veí¬culos circulando pela cidade.

Fico muito orgulhoso de poluir a cidade de São Paulo com meus cartazes e outdoors para meus clientes, poluição que chega ao absurdo de ser premiada aqui e no exterior e exibida na mais importante exposição feita em Paris, no Gran Palais, entre os cem melhores cartazes do século 20.
Pura poluição. Viva ela.

FRANCESC PETIT, 72, publicitário e artista plástico,é sócio-proprietário da agência DPZ.

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