23 de Julho de 2009
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Publicada em 08/01/07

Gregos E Troianos

Editorial do jornal Propaganda e Marketing critica postura do Prefeito Gilberto Kassab

Como será 2007 depende muito de você. O mercado publicitário estará livre de pelo menos duas grandes ilusões que se repetem a cada quadriênio: a Copa do Mundo, que só é realmente boa para todo o negócio publicitário quando o Brasil faz bonito (nem precisa ser campeão) e as eleições para Presidente da República, governanças estaduais e parlamentares, que invariavelmente têm provocado períodos de crises travando o mercado.

A receita para o sucesso não muda, ao estilo Churchill: sangue, suor e lágrimas. É o que se pede aos empreendedores "neste País" cada vez mais confuso institucionalmente.

Os últimos tempos têm mostrado à saciedade um povo dividido não ideologicamente, que a grande maioria pouco sabe avaliar sobre isto, mas em um primeiro corte e numa divisão absolutamente desproporcional, em gregos e troianos.

Os primeiros ocupam os mais altos escalões dos três Poderes e todos os privilégios lhes são concedidos (por eles próprios). Ironicamente, a esse grande contingente chapa-branca, cabe a condução de grande parte do destino da esmagadora maioria de "troianos" que habita o País, por delegação de um sistema democrático onde todos deveriam ser iguais perante as leis, mas os "gregos" são mais iguais que os "troianos".

Essa configuração geopolítica e social não dá espaço para grandes reversões no cenário. Resta então para os que verdadeiramente constroem o País, o mesmo comportamento de sempre: lutar com dignidade pela vida, cada qual em seu galho, com poucas esperanças de apoio e zelo por parte de quem foi colocado em cargos bem remunerados, exatamente para essa prática.

Não se trata aqui de nenhum comentário amargo; é apenas o retrato fiel de um País que tem tudo para dar certo, mas teima em escolher mal seus governantes, até por falta de melhores opções, lamentavelmente, nos últimos anos.

O que resta, então, é a esperança na iniciativa privada, na qual incluímos todos os brasileiros que não fazem parte daquele próspero embora insensato contingente. Cabe, pois, a cada um dos milhões de "troianos", realizar o seu 2007 da melhor maneira possível, valorizando sobremaneira a ética - qualquer que seja a função exercida - para que provavelmente por osmose possamos, ainda que lentamente, mudar o País. Neste particular, cabe uma observação especial e desalentadora sobre o comportamento da nossa classe política nos últimos dois anos: jamais se viu tanto descalabro na vida pública brasileira.
Como o último resultado das urnas gerou a falsa impressão de que tudo foi absolvido, distanciamo-nos todos - até por saturação - de uma discussão mais profunda sobre os escândalos que cobriram o País de vergonha.

O que se pede neste início de ano aos homens e mulheres de bem deste País, é que não se deixem envolver por esse sentimento de permissividade, que só beneficia aos mal-intencionados. O alerta que fica é a lição clássica de que se perdem batalhas, mas a guerra continua e o objetivo é ser afinal vencida pelo bem.

Ainda agora, assistimos no restrito território publicitário brasileiro, que hoje responde por menos de 1% do PIB nacional, a esse tipo de comportamento linear e repetitivo de um alto representante dos "gregos" (nenhuma ofensa aqui aos nascidos no grande País amigo; a adjetivação procede do famoso episódio histórico que caiu na boca de todos os povos como um divisor de águas). Queremos nos referir ao atual prefeito de São Paulo, que parece ter feito da perseguição à clássica propaganda ao ar livre a principal plataforma do seu governo.

Ao entrar em vigor a legislação que proíbe esse tipo de publicidade, S. Exa. pessoalmente vem comandando as blitzes contra os painéis, como um D. Quixote às avessas terçando lanças contra os seus moinhos de vento.

Expondo-se em demasia para obter prestígio pessoal (e cacife eleitoral pensando nas próximas eleições), nosso alcaide surge em meio à equipe de demolidores de painéis, à la Jânio Quadros, dando a cara para bater em situações grotescas e facilmente previsíveis (menos por S. Exa. e entourage), como às que temos assistido e que de certa forma completa o famoso binômio pão e circo, ainda mais na falta daquele neste início de ano repleto de contas a pagar e tão poucas a receber. Vimos pela televisão o alcaide ser questionado por um pequeno empresário do setor, dono de alguns painéis, sobre a legalidade da derrubada dos mesmos, protegidos que estariam por liminares judiciais. Pela mesma mídia, presenciamos seu distanciamento proposital quando a inabilidade de um dos seus operários pôs a pique, de forma desmesurada e apenas pela metade, um enorme painel que teimava em contrariar a lei e sair do ar.

Um circo a céu aberto instalando-se em logradouros de São Paulo, para gaudio de privilegiados espectadores que não esperavam por tanto sem pagar ingresso. Não foi certamente para isso que S. Exa. assumiu o comando da Prefeitura da maior cidade da América Latina, na esteira da incompatibilidade da candidatura do seu antecessor ao Governo do Estado de São Paulo. Por não ser "troiano", porém, vai reunindo credenciais para reeleger-se - superado o dilema de se tratar de uma reeleição - mesmo que à custa do injusto sacrifício de um importante segmento da atividade publicitária, causando a esta mais um incalculável dano de imagem.

A seu favor, S. Exa. conta com o apoio de arquitetos e demais formadores da opinião pública, de olhos vendados para todas as verdadeiras mazelas que poluem a paisagem paulistana, destacando-se entre elas a miséria humana ambulante que tomou conta da cidade e para a qual o poder público estimulou o sofisma da inclusão social.

Nossos pobres continuam mais pobres, mas estão incluídos socialmente, seja lá o que signifique essa expressão na cabeça dos "gregos".

Armando Ferrentini

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