23 de Julho de 2009
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Publicada em 16/10/06

É Proibido Proibir

Sócio-diretor da agência DPZ escreve sobre o Projeto Cidade Limpa

É proibido proibir
(Caetano Veloso)
Francesc Petit*

Excelentíssimo Senhor Prefeito Gilberto Kassab, quando tinha apenas quatro anos de idade, um amigo do meu pai me perguntou o que eu gostaria de fazer quando fosse adulto. Sem titubear, respondi: "Serei cartazista". E sabia exatamente o que estava dizendo. O artista que faz aqueles cartazes típicos, chamados de "affiche", na França, "pôster" na América, e ultimamente apareceram os cartazes gigantes conhecidos como "outdoors".

O que seria de mim, se mesmo em plena ditadura franquista o ditador tivesse proibido os cartazes? Nem mesmo Hitler ou Mussolini tiveram a idéia de proibir esta expressão de arte tão tradicional que imortalizou grandes artistas. A Prefeitura de São Paulo poderia aproveitar e proibir também aquelas pessoas cultas que apreciam esta modalidade de arte e proibir também os cartazes de Tolouse Lautrec, que o tornaram famoso em todo o mundo, os fabulosos cartazes de Pablo Picasso, como o dos "Quatre Gats", e os geniais cartazes do artista catalão Joan Miró, o qual me confidenciou em um encontro que tive com ele que considerava o melhor da sua obra os "cartazes", ou os sofisticados cartazes do teatro de Alphonse Muche. Também botariam no fogo, como na Santa Inquisição, os cartazes de Hans Rudi Erdt, que fez para os carros Opel, e Schulz-Neudamm para o filme "Metropolis", do diretor Fritz Lang. Ainda iriam para o fogo o famoso cartaz de Henry Van de Velde, "Tropon", e os de Pierre Bonnard, para France Champagne. Nem a locomotiva de Cassandre se salvaria desse absurdo de proibir cartazes. Também o seu famosíssimo do homem bebendo "Dubonnet", igual às obras magistrais de Paul Colin ou Herbert Leupin que fez para a Coca-Cola, e os mais contemporâneos, como Milton Glaser. Até mesmo os incríveis cartazes do artista francês René Gruau que fez para a Casa Dior, Van Cleef & Arpels, Elizabeth Arden e outras grandes grifes da moda parisiense, seriam jogados todos no lixo. Nem o grande cartazista Saul Bass se livraria dessa perseguição contra a cultura do cartaz.
A colônia japonesa ficará indignada quando forem destruídos os cartazes de Ikko Tanaka e Shigeo Fukuda. É o fim da arte do cartaz.
Sem dúvida é urgente por fim à poluição visual da cidade de São Paulo, mas creio que o jeito é truculento. A intenção é boa, todos queremos uma cidade melhor, com qualidade de vida, visualmente limpa, mas será que os cartazes são os culpados por todas as desgraças dessa gigantesca metrópole? As mais belas e civilizadas cidades do mundo têm lindo cartazes nas ruas e avenidas que ajudam muito ao colorido e à alegria da paisagem urbana.
No ano passado presenciei em Paris uma exposição de cartazes históricos sobre o turismo de inverno, na Suíça, algumas das geniais obras do gráfico Herbert Matter. A exposição foi montada com um sofisticado projeto de design e arquitetura, com ampliações gigantes das imagens dos cartazes. Só que tem um detalhe importante: essa instalação foi montada na praça mais sofisticada do planeta, a Place Vandome, de Paris. Será que a prefeitura de Paris é tão irresponsável de patrocinar tal evento?
Acontece que Paris ficou famosa no mundo inteiro pelos seus quiosques para expor cartazes. É uma questão cultural. Ou será que as autoridades paulistanas vão mostrar às grandes metrópoles como tratar esse assunto tão delicado que é a poluição visual? Será que com esta atitude a Prefeitura de São Paulo quer mostrar ao mundo que Londres, Paris, Berlim, Milão, Roma, Lisboa, Barcelona, Madri, Tóquio e uma centena ou mais de grandes cidades, que há muitos anos vêm cuidando desse aspecto visual de suas cidades sem traumatizar nenhum setor do ramo de outdoor da propaganda extgerna, estão todos errados?
Quer dizer que pichar as paredes dos edifícios, monumentos, trens, casas particulares e deixar os milhões de placas, faixas e banners que existem nos subúrbios, isto pode. Outdoor legal, que paga suas taxas à prefeitura e que embeleza a cidade, isto não pode, deve ser proibido.

Francesc Petit é sócio-diretor da agência DPZ.
Artigo publicado no Editorial do Caderno de Propaganda e Marketing, de 09/10/2006, página 2.

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